Brasil registra a menor taxa de homicídios desde 1998, mas violência “invisível” quase se duplica

Taxa de homicídios no Brasil atinge o menor nível desde 1998, mas mortes sem causa definida crescem preocupantemente

Atlas da Violência 2026 revela redução nos assassinatos, mas aumento alarmante de casos não identificados

Em 2024, o Brasil alcançou a menor taxa de homicídios desde 1998, com 20,1 mortes para cada 100 mil habitantes. Contudo, dados do Atlas da Violência — elaborado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública — indicam um crescimento alarmante nas mortes violentas sem causa esclarecida, uma realidade que gera incertezas sobre a efetividade da redução oficial.

Queda acentuada, mas com nuances contraditórias

No total, foram registrados 42.590 homicídios em todo o país, refletindo uma diminuição de 6,9% em comparação ao ano anterior. A taxa nacional apresentou uma queda de 7,4% em relação a 2023 e, considerando o período entre 2014 e 2024, observa-se uma redução acumulada de 33,4% na taxa e de 29,6% no total de assassinatos.

A pesquisa se baseia em dados oficiais relacionados à saúde e notificações para compor uma série histórica. Embora os resultados indiquem uma tendência geral de queda, essa diminuição é desigual entre os diferentes Estados e municípios.

Crescimento dos homicídios “ocultos”

Os pesquisadores chamam a atenção para o aumento das Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI), além de um grupo denominado “homicídios ocultos” — mortes que não são oficialmente categorizadas como assassinatos, mas que têm grande probabilidade de serem.

Em 2024, foram contabilizados milhares de casos de mortes violentas sem causas definidas. Um modelo probabilístico sugeriu que aproximadamente 7.083 desses incidentes poderiam ser considerados homicídios não reconhecidos nos dados oficiais — quase o dobro do registrado no ano anterior, representando um crescimento de 88,6%.

A inclusão desses casos altera a compreensão sobre a violência letal no país: os homicídios ocultos agora correspondem a uma parcela significativa dos assassinatos estimados, complicando a análise desse fenômeno e dificultando o planejamento das políticas públicas.

Análise da desigualdade: onde a violência diminui e onde ainda persiste

A queda nos homicídios foi ampla, mas não uniformizada. Estados como São Paulo, Santa Catarina e Minas Gerais apresentaram as menores taxas oficiais, enquanto Amapá, Bahia e Pernambuco permanecem entre os mais afetados pela violência.

Imagem: Divulgação

O Amapá destaca-se por ser a única unidade da federação a registrar um aumento significativo tanto na taxa quanto no número absoluto de homicídios na última década. Dentre as cidades com mais de 100 mil habitantes, a maioria das localidades mais violentas está localizada no Nordeste; já as menos violentas estão no Sul e Sudeste do país.

Em termos absolutos, as maiores quedas nos homicídios em 2024 ocorreram nos estados do Rio de Janeiro, Bahia e Rio Grande do Sul — esses estados lideraram a diminuição nos registros.

Percepção pública e suas implicações

Apesar da redução nas estatísticas oficiais, a sensação de insegurança entre a população continua elevada. Especialistas destacam que a deterioração na qualidade das informações em 2024 — com um aumento nos registros sem causas identificadas — surpreendeu e complicou as avaliações sobre os avanços ou retrocessos na violência.

O contraste entre uma taxa historicamente baixa e o aumento dos casos não identificados cria um cenário ambíguo: enquanto as estatísticas mostram melhora, um problema invisível cresce nas margens dos números oficiais.

Considerações finais

O Atlas da Violência 2026 apresenta um retrato complexo: há progresso nas taxas de homicídio ao mesmo tempo em que se observa um aumento preocupante nas mortes que não se encaixam nas classificações comuns. O resultado é um panorama da violência que mudou significativamente, mas ainda guarda desafios difíceis de quantificar — impactando diretamente a percepção pública sobre segurança.