Edson José Bandeira Braga Filho destaca a importância de aprender a enxergar além das próprias certezas

Para Edson Braga, algumas das decisões mais difíceis da vida exigem menos pressa para encontrar respostas e mais coragem para reconhecer medos, desejos e convicções que podem distorcer a realidade

Enxergar não significa necessariamente ver.

Embora os olhos consigam perceber aquilo que está diante deles, a interpretação da realidade passa por experiências, desejos, medos, ambições, feridas e convicções que cada pessoa carrega.

É a partir dessa reflexão que Edson José Bandeira Braga Filho, também conhecido como Edson Braga, analisa a importância de desenvolver uma capacidade que considera fundamental para a vida, para os relacionamentos e especialmente para quem ocupa posições de liderança: aprender a enxergar a realidade sem permitir que as próprias certezas ocupem todo o campo de visão.

Ao abordar o tema, Edson utiliza como referência a palavra Re’eh, apresentada em sua reflexão a partir da Torá com o sentido de “veja”.

A simplicidade da expressão esconde, segundo ele, um desafio profundo.

Olhar depende dos olhos.

Ver exige consciência.

E talvez alguns dos maiores erros sejam cometidos justamente quando uma pessoa consegue observar os sinais diante dela, mas não está emocionalmente disponível para aceitar aquilo que eles revelam.

Muitas decisões podem começar antes da análise racional

Gostamos de imaginar que decisões importantes seguem um processo lógico.

Analisamos possibilidades.

Comparamos alternativas.

Estudamos riscos.

Consultamos informações.

Depois escolhemos.

Para Edson Braga, entretanto, nem sempre é essa a sequência real.

Em determinadas situações, uma decisão emocional pode acontecer primeiro.

Depois disso, a inteligência começa a trabalhar para construir argumentos capazes de justificá-la.

A pessoa acredita estar procurando a verdade, quando talvez esteja apenas selecionando evidências que sustentem uma conclusão que já desejava encontrar.

Esse comportamento pode aparecer em relacionamentos, decisões familiares, escolhas pessoais e também no ambiente empresarial.

Segundo Edson José Bandeira Braga Filho, o risco aumenta quando alguém possui experiência suficiente para construir justificativas extremamente sofisticadas para aquilo que, no fundo, talvez seja apenas uma necessidade emocional.

A capacidade de enxergar antes também possui riscos

Existe uma característica fundamental em quem empreende: a capacidade de acreditar em algo antes que outras pessoas consigam enxergar a mesma possibilidade.

Antes de uma empresa existir, alguém precisa imaginá-la.

Antes de um novo mercado ser evidente, alguém precisa perceber a oportunidade.

Antes de todos os números confirmarem uma tese, normalmente existe um empreendedor disposto a acreditar nela.

Essa capacidade é uma das forças do empreendedorismo.

Mas, para Edson Braga, também pode se transformar em armadilha.

Existe uma diferença delicada entre visão e ilusão.

Entre convicção e teimosia.

Entre coragem e imprudência.

Entre persistência e apego.

Entre velocidade e ansiedade.

Em alguns momentos, o empreendedor pode acreditar estar identificando uma oportunidade excepcional quando, na realidade, apenas precisa emocionalmente que aquela oportunidade exista.

Para Edson José Bandeira Braga Filho, experiência não elimina completamente esse risco.

Às vezes, pode apenas tornar mais sofisticada a maneira como alguém justifica o próprio autoengano.

Quanto mais investimos, mais difícil pode ser enxergar novamente

Um dos momentos mais delicados de qualquer decisão surge quando já existe muito investimento envolvido.

Dinheiro.

Tempo.

Energia.

Afeto.

Reputação.

Identidade.

Quanto mais alguém investiu em determinada direção, mais difícil pode se tornar reavaliá-la com liberdade.

Reconhecer uma mudança de cenário também pode significar reconhecer que determinada previsão não aconteceu como esperado.

E essa admissão pode atingir diretamente o ego.

Segundo Edson Braga, existe uma tendência humana de continuar perdendo apenas para evitar admitir que talvez já tenha sido perdido o suficiente.

Isso pode acontecer em um negócio.

Em uma sociedade.

Em um relacionamento.

Em uma estratégia empresarial.

Ou em qualquer projeto ao qual alguém vinculou parte importante da própria identidade.

Existe coragem também em reconhecer a hora de parar

Persistência é uma característica valorizada no empreendedorismo.

Muitas empresas somente existem porque seus fundadores continuaram quando outros teriam desistido.

Mas Edson José Bandeira Braga Filho lembra que também existe coragem na capacidade de reavaliar.

Às vezes será necessário continuar.

Em outras situações, parar.

Existem momentos para lutar.

E momentos para soltar.

Momentos para falar.

E outros para permanecer em silêncio.

Momentos para permanecer.

E outros para partir.

Desistir cedo demais pode encerrar um projeto que precisava apenas de mais tempo.

Mas insistir tarde demais também pode ampliar prejuízos que já estavam evidentes.

Nesse sentido, maturidade pode estar justamente na capacidade de reconhecer a diferença entre perseverança e apego.

A realidade costuma oferecer sinais

Para Edson Braga, a realidade está constantemente oferecendo informações.

Os números falam.

O mercado fala.

As pessoas falam.

O corpo fala.

Os relacionamentos falam.

Os filhos falam.

Os resultados falam.

O silêncio também pode dizer alguma coisa.

A dificuldade, portanto, nem sempre está na ausência de sinais.

Pode estar na resistência em aceitar aqueles que contradizem o futuro que alguém já construiu mentalmente.

Em algumas situações, uma pessoa continua pedindo uma nova resposta porque não gostou daquela que já recebeu.

Continua procurando novos argumentos porque a realidade não confirmou a conclusão desejada.

Segundo Edson José Bandeira Braga Filho, essa pode ser uma forma particularmente sofisticada de cegueira: observar repetidamente aquilo que está acontecendo e ainda assim permanecer procurando uma versão diferente da realidade.

De onde vem a nossa certeza?

Diante de decisões relevantes, Edson Braga propõe uma pergunta diferente.

Em vez de questionar apenas “estou certo?”, talvez seja necessário perguntar:

“De onde está vindo a minha certeza?”

Ela nasce do medo?

Do ego?

Da vaidade?

Da necessidade de demonstrar capacidade?

Do dinheiro?

Da ansiedade?

Da mágoa?

Da necessidade de controle?

Ou surge de um lugar interior mais silencioso, no qual já não existe tanta necessidade de convencer outras pessoas?

Para Edson José Bandeira Braga Filho, nem toda certeza representa sabedoria.

Da mesma forma, a dúvida nem sempre representa fraqueza.

Em determinadas circunstâncias, duvidar pode significar simplesmente permitir que uma informação diferente encontre espaço dentro de uma convicção que parecia definitiva.

Grandes líderes precisam continuar capazes de duvidar de si mesmos

A reflexão também possui aplicação direta na liderança.

Um líder precisa decidir.

Precisa assumir responsabilidades.

Em alguns momentos, terá de agir mesmo sem possuir todas as informações disponíveis.

Mas isso não significa que deva transformar suas próprias opiniões em verdades incontestáveis.

Para Edson Braga, um dos riscos de uma liderança experiente está justamente em perder a capacidade de questionar a si mesma.

Quando todas as análises de um líder terminam confirmando exatamente aquilo que ele já acreditava, pode ser necessário perguntar se ainda existe reflexão verdadeira.

Talvez esteja acontecendo apenas defesa.

Um ambiente saudável precisa permitir contrapontos.

Pessoas precisam sentir que podem apresentar informações desagradáveis.

Uma organização na qual ninguém consegue dizer ao líder aquilo que ele não deseja ouvir pode começar a perder contato com a própria realidade.

Também enxergamos os outros através da nossa própria história

O mesmo fenômeno aparece nos relacionamentos.

Segundo Edson José Bandeira Braga Filho, muitas vezes acreditamos estar avaliando objetivamente outra pessoa quando, na realidade, parte da interpretação está sendo construída por experiências anteriores.

Uma frase pode ser interpretada através de uma antiga ferida.

Um silêncio pode parecer rejeição.

Um comportamento pode despertar inseguranças construídas muito antes daquele relacionamento.

Também podemos atribuir ao outro características que, em alguma medida, ainda estamos tentando compreender dentro de nós mesmos.

Por isso, aprender a ver exige autoconhecimento.

Quanto menos uma pessoa conhece seus próprios medos, feridas e padrões, maior pode ser a dificuldade de separar aquilo que realmente está acontecendo daquilo que ela projeta sobre a situação.

Sabedoria talvez seja enxergar com menos interferência do ego

Durante muito tempo, sabedoria foi frequentemente associada à capacidade de enxergar mais longe.

Edson Braga propõe outra possibilidade.

Talvez sabedoria também signifique enxergar com menos interferência de nós mesmos.

Menos ego.

Menos medo.

Menos necessidade de aprovação.

Menos desejo de vencer uma discussão.

Menos obrigação de encontrar exatamente a resposta que gostaríamos.

A realidade não necessariamente mudou.

Mas aquele que observa pode mudar.

E algumas respostas que permaneceram invisíveis durante muito tempo começam a aparecer justamente quando a pessoa consegue reduzir o ruído provocado pelas próprias expectativas.

Nesse sentido, o problema nem sempre é ausência de resposta.

Pode ser excesso de interferência.

A espiritualidade também pode exigir disposição para enxergar

A reflexão ganha ainda uma dimensão espiritual.

Edson José Bandeira Braga Filho apresenta uma oração que considera particularmente desafiadora.

Em vez de pedir simplesmente que Deus mostre determinado caminho, propõe outra disposição: pedir que sejam retirados os obstáculos internos que impedem alguém de reconhecer aquilo que talvez já esteja sendo mostrado.

Porque, em algumas situações, a resposta pode estar diante da pessoa.

Nos números.

Na reação de alguém.

Em uma oportunidade que não avança.

Em uma porta que permanece fechada.

Em outra possibilidade inesperada que começa a surgir.

Até determinadas perdas podem carregar informações capazes de redirecionar uma trajetória.

Para Edson Braga, a dificuldade está em aceitar a possibilidade de que a verdade encontrada seja diferente daquela que se desejava encontrar.

E justamente aí pode existir uma forma importante de liberdade.

Não enxergar apenas aquilo que queremos.

Mas procurar enxergar aquilo que é.

Antes de escolher, veja

A palavra Re’eh retorna, então, como síntese da reflexão.

Antes de escolher, veja.

Antes de julgar, veja.

Antes de desistir, veja.

Antes de insistir, veja.

Antes de culpar, veja.

Antes de responder, veja.

Antes de pedir outro sinal, veja.

E, principalmente, antes de procurar todas as respostas no mundo exterior, existe a necessidade de olhar também para dentro.

Para Edson José Bandeira Braga Filho, talvez a maior cegueira não esteja em deixar de perceber aquilo que está diante dos olhos.

Ela pode acontecer quando alguém percebe claramente uma realidade, mas escolhe continuar ignorando-a porque ela contraria aquilo que gostaria de acreditar.

Nesse sentido, aprender a ver é também aprender a reconhecer aquilo que existe dentro de nós e interfere na maneira como interpretamos o mundo.

O ego.

O medo.

As feridas.

A ansiedade.

As expectativas.

A necessidade de controle.

Talvez a pergunta mais transformadora deixe então de ser:

“Por que a vida ainda não mostrou o caminho?”

E passe a ser:

“O que existe dentro de mim que ainda não me permite enxergar?”

Talvez nem sempre faltem sinais.

Talvez, em determinadas situações, precisemos apenas desenvolver coragem suficiente para finalmente vê-los.